Como melhorar a saga Crepúsculo

Meu primeiro post sobre cinema e que cita vampiros é sobre Crepúsculo. Eu sei, se você é um típico usuário dessa rede mundial de computadores, está com vontade de fechar o seu navegador agora e atear o computador.

“Leave now and never come back!”

Em minha defesa adianto 2 coisas: Não li os livros e esse post não fala bem da série. Meu conhecimento sobre vampiros é o esperado de um nerd que já demonstrou interesse pelos mesmos, ou seja, Nosferatu, Bram Stoker, A Máscara, Lestat de Lioncourt, Alucard… enfim, se você conhece pelo menos 3 desses 5 itens que citei, pode concluir que a saga Crepúsculo não é canônica em meu conhecimento vampírico. Mas não pense que estou falando mal da história de graça, vi os filmes e essa é minha forma de criticá-los, construtivamente. Fora que com esse post você terá bons argumentos contra aquela sua amiga chata que te acha estúpido por não gostar da saga.

Assim, vamos ao post:

As melhorias que sugerirei são para a história da série. Os filmes são ruins tecnicamente. Literalmente. Atuação, direção, efeitos especiais… Isso é claro para qualquer um que tenha visto qualquer trecho de qualquer um dos filmes, então não vejo necessidade de fazer um post que possa sugerir essas melhorias. A questão aqui é enredo, a narrativa, o que faz a série ser ruim, independente de sua adaptação.

Fazendo uma busca rápida no Google, vemos que a série é até injustiçada e poucos são os argumentos contra ela que são melhores que a mesma. Por exemplo, eis parte de uma lista de 95 motivos para Crepúsculo ser ruim:

O autor dessa lista é, no máximo, tão bom escritor quanto Stephenie Meyer

Mas afinal, o que é tão ruim (de verdade) nessa saga que poderia mudar e, quem sabe fosse possível, torná-la melhor? (Lembrando que meus argumentos são baseados na história apresentada nos filmes.)

O brilho do vampiro

Tudo bem, você quer que seu vampiro não morra durante o dia. Começou bem: a cidade de Forks é cheia de névoa, chuvosa. A luz do sol é fraca nesse local, o que torna o lugar bem apropriado para vampiros. Porém, você ignora essa preocupação e deixa os mesmos andarem livremente pela claridade, seja pelas poucas áreas ensolaradas da cidade no primeiro filme até uma ilha no Rio de Janeiro, local que moro, com um clima que é muito mais nocivo para mim, ser humano mortal, que para o vampiro da série, como mostrado na penúltima película. Ao receber a luz do sol em sua pele, Edward brilha como diamante. E só.

Além disso, antes de se mostrar caleidoscópicamente brilhante, o jovem ancião escondia essa característica e recusava o contato com a luz solar, o que faz qualquer pessoa com o mínimo de cultura popular acreditar que isso seria um problema pra ele, enfraquece-lo ou simplesmente matá-lo, afinal, ele é um vampiro.

Mas, então, o que fazer? Seguir o padrão moderno popular e simplesmente fazer o imortal deixar de ser?

“Burn the witch”

Não, isso exigiria uma reformulação completa da história (que não deixa de ser a melhor solução para melhorar a saga). O que precisamos é de uma solução original, pois, querendo ou não, uma boa história precisa de inovações. Mas, ao mesmo tempo, precisamos de que essa novidade faça sentido no universo comum entre os conhecedores do termo vampiro. Ora, se é pra ser tão diferente de um vampiro, era melhor chamar de outra coisa.

Qual afinal é a solução simples? Ao invés de brilhar, o imortal poderia se tornar um ser cadavérico, sombrio, assustador. E pra melhorar ainda mais, ele poderia perder os poderes quando exposto ao sol. Dessa forma poderíamos ver que o rapaz é, de fato, um amaldiçoado. E não importa que a garota continue achando ele lindo, amor estar acima das diferenças é um artifício válido. Mas nós não somos a garota e, para que possamos entender o que é o monstro, ele precisa ter, no mínimo, um aspecto monstruoso (fora a atuação).

O que nos leva ao próximo tópico:

Vampiros são amaldiçoados

Embora pareça muito divertido ser imortal, super forte, super ágil, ter sentidos apurados e regeneração rápida, a vida (ou o que resta dela) de um vampiro não é fácil. Vampiros são amaldiçoados, logo, eles têm diversos defeitos que fazem com que essa criatura sobrenatural seja diferente de um super-herói.

O Wolverine é um vampiro que sai de dia e não precisa se alimentar de sangue

Todos gostaríamos de ter superpoderes, mas nem todos de ser amaldiçoados. Não poder ver o dia, ter que se alimentar de sangue fresco (exigindo que se torne um assassino), não poder ver o próprio reflexo, ser convidado antes de entrar em uma casa (Edward ficava olhando Bella dormir antes mesmo de se conhecerem), fraqueza em relação ao fogo, alho, prata, água benta, crucifixo, rosário e outros itens apotropéicos são apenas algumas das tradicionais maldições encontradas em ficções cujo tema envolve vampiros. A série Crepúsculo, embora com personagens constantemente dizendo que são amaldiçoados, não mostra, de fato, defeitos nos vampiros. São super-heróis que brilham no claro (afinal, brilhar no escuro seria um problema real para um predador). Escolha qualquer uma das falhas acima e seu vampiro será um personagem muito melhor desenvolvido, pois até mesmo super-heróis (ou qualquer herói de uma boa trama) tem defeitos.

Aliás, além dele ser um vampiro, o que mais sabemos sobre Edward?

Foco, foco, foco

Como o vampiro pode encontrar a mocinha, uma adolescente de 17 anos que acaba de se mudar para nova cidade? De qualquer maneira, EXCETO no colégio. Afinal, o que um ser imortal de 80 anos (ouvi dizer que a série se passa nos anos 80 e que o rapaz nasceu em 1901) estaria fazendo freqüentando um colégio? Especialmente se ele quiser esconder sua identidade, ter seu nome registrado em diversos colégios, com diversas carteiras falsas e etc. é muito mais trabalhoso que simplesmente, digamos, mentir a idade para quem perguntar. Conveniência não torna sua narrativa bem elaborada.

Tudo bem, vamos dizer que o importante não é a história, mas os personagens. Ignoremos um pouco como eles se encontram ou o que acontece naquele período narrativo. Vamos focar nos personagens e não na história.

Edward é um vampiro que… bem, ele é diferente dos outros vampiros por que ele… Hm. Deixa ele pra lá, importante é a menina, a mocinha, o público alvo é feminino, Bella DEVE ser uma personagem bem desenvolvida!

Bem, Bella é uma menina… desajeitada, amada por todos, todos gostam dela, ela é bem atraente.

Precisa haver um motivo pra ela ser tão atraente e afetar tão fortemente todos os personagens da saga. Seria ela parte lobisomem? Seria ela uma fada? Isso explicaria muita coisa: A atração, a gravidez, o perigo. Mas não, ela é apenas uma humana realmente atraente e desajeitada.

Espero que meu ponto tenha ficado claro. Siga um caminho com sua narrativa: História densa, com personagens mais rasos como Jurassic Park e Fundação ou aprofunde seus personagens e deixe a história meio de lado como em Um Sonho de Liberdade e Identidade Bourne. Claro que existem boas histórias que essa diferença é bem sutil, mas não estamos falando de boas histórias, estamos falando de Crepúsculo.

E falando em histórias para meninas…

Uma série feminina deveria, no mínimo, não ser machista

“Peraí, então você tá me dizendo que Crepúsculo, uma série mais menininha impossível, é machista?!” Tô.

Bella ama o próprio pai, que é ausente, mas diz ama-la. Vemos ela cozinhar e limpar a casa enquanto o pai limpa a arma e bebe cerveja. Edward é tratado como romântico o filme inteiro, mas ele não aceita sexo antes do casamento (que, por sinal, no filme é uma metáfora que não é uma metáfora) e ela obedientemente aceita essa condição, além de seguir as regras impostas por ele de como agir e com quem se relacionar. Como mostrado no segundo filme, longe de um homem ela se torna uma potencial suicida (na hora que ela está separada do vampiro e só melhora quando começa a se relacionar com o lobisomem). Colocar um pouco de ‘girl power’ na Bella, não só daria à ela profundidade, como educaria seu público-alvo.

“Parece que descobrimos outra característica de Edward”

“Olha só, nada do que você falou importa, porque quem criou a história que inventa as regras e não hà problema nenhum nisso!”

Regras são feitas para serem quebradas, exceto quando não se pode quebra-las.

Ok, seu universo, suas regras. Vampiro brilha no sol, Bella é adorada por todos, imprinting é incontestável e vampiros e humanos não podem procriar… Oh, wait!

Um Deus Ex Machina de vez em quando não mata ninguém (pelo contrário, na verdade), mas mudar as regras do jogo depois dele já ter começado é querer demais ser o dono da bola. Eu sei que foi explicado que na verdade é uma coisa muito rara que acabaram “esquecendo”, mas isso foi uma explicação dentro da trama, fora dela foi simplesmente mudança de regra. Isso poderia passar em branco, mas usar o argumento de incontestável para o imprinting logo depois da regra incontestável do cruzamento ser quebrada faz com que a história passe a ser ditada pela vontade inconsistente da autora. É pedir consistência e lógica em uma narração demais?

Essas mudanças fariam da saga uma boa série? Não. Mas, ao menos, teria um pouco de dignidade e menos ódio sem sentido.

Achou algum termo confuso? Deus Ex Machina, por exemplo. Não se preocupe, esse tipo de coisa merece o próprio post, aguarde! Não concorda com meus argumentos? Deixe um comentário com sua replica!

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Um Comentário

  1. Pingback: Grandes aberturas de séries « Mira Machina

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