Prometheus e a Malandragem Hollywoodiana

Atenção, este post contém Spoilers de Prometheus. Como existem pessoas que gostaram do filme e, mesmo que tenha sido ruim para mim, não acho que ninguém deva deixar de ter a própria experiência só porque desgostei. Eu vi Crepúsculo mesmo sabendo das críticas, ainda assim, achei várias infundadas, como bem disse aqui.
E já deve estar claro que, assim como várias pessoas, não gostei de Prometheus. Existem muitos reviews e explicações excelentes por aí, no final do post terá um link pras minhas favoritas. Então, ao invés de me focar apenas na história problemática do filme, focarei na parte cinematográfica, malandra, de hollywood.

Em 2003 disseram que teria uma filme com uma nova tecnologia, que seria visualmente impressionante e realista nunca antes vista. Esse filme foi Matrix Reloaded, continuação do sucesso de 1999. Na época ele foi grandioso, com uma legião de fãs despertou inúmeras paródias e foi referência para futuros filmes e jogos. Hoje, quando falamos de Matrix somos praticamente unânimes – “o primeiro é muito bom, já os outros dois…”.
Em 2009, outro filme teve a mesma conversa: Nova tecnologia, visualmente impressionante, realista e, agora, imersivo. Foi a vez de Avatar, de James Cameron (que também foi responsável por continuar a série Alien), re-introduzindo a tecnologia 3D para o cinema mundial. O filme teve um hype tremendo. Pessoas quiseram cometer suicídio por causa do filme, mesmo sendo uma colcha de retalhos de clichés de uma história manjada. Lembrem-se bem dessa definição que acabei de dar pra Avatar, pois ela é a mesma que estou dando para Prometheus.

Finalmente, chegamos à 2012. Nessa década que o cinema hollywoodiano tem se resumido a franquias, com reboots, continuações ou, simplesmente, pegar algo nostálgico e transformar num filme. Para firmar esse argumento, veja os filmes, retirados da lista dos 10 de maior bilheteria de 2010/11, que caem nessa condição: Toy Story 3, Alice no País das Maravilhas, Harry Potter e as relíquias da Morte parte 1, Shrek 4, Enrolados, Saga Crepúsculo: Eclipse, Homem de Ferro 2, Harry Potter e as Relíquias da Morte parte 2, Transformers 3, Piratas do Caribe 4, Saga Crepúsculo: Amanhecer parte 1, Missão impossível 4, Kung Fu Panda 2, Se Beber não Case 2, Os Smurfs, Carros 2.

Dos 20 filmes que compoem a lista, apenas 3 (A Origem, Meu Malvado Favorito e Como Treinar seu Dragão), todos de 2010, não caem nessa condição que falei.

Eu realmente esperava que Prometheus fosse ser uma das poucas exceções disso, afinal, Ridley Scott disse em diversos momentos que, mesmo o filme fazendo parte do mesmo universo de Alien, seria uma nova mitologia, uma nova história, tudo novo!

O filme do começo ao fim é uma referência à Alien. Quando eu digo referência eu quero dizer: Mesma premissa, mesmas construções de personagem e mesmo roteiro. Fora inúmeras cenas que pegam os filmes e outras histórias influenciados por Alien como “referência”. Inclusive, acho que os aliens (tanto Face-hugger, quanto o Xenomorph) aparecem o suficiente para chamar o filme de Alien 5 ou Alien 0, considerando que é um prequel claro. Ou melhor, infelizmente, nem isso é tão claro, mas falamos disso daqui a pouco…

Então, o filme se chama Prometheus. Caso você não tenha associado o nome à pessoa, Prometeu é aquele rapaz, Titã, que roubou o fogo dos deuses e deu para os mortais. Aí foi castigado por Zeus, sendo amarrado numa pedra com uma águia comendo seu fígado, que era regenerado todos os dias, tornando o sofrimento eterno.

Lembrou?

O filme fica indo e voltando nisso o tempo todo, falando dos Engenheiros (os alienígenas – deuses astronautas) que criaram a vida na terra, mas agora querem nos matar (seja lá qual for o motivo), e do David, o android, que toda hora comenta algo sobre a morte dos criadores.

O problema? Se essa fosse a plot principal, não seria um problema. Acontece que isso não é aprofundado, é só comentado repetidamente.

Tem também o enredo do robô trairá que infecta um tripulante, fala o tempo todo de emoção que ele próprio não tem e pega coisas escondidas.
Tem aquele da conspiração, que o velho que investiu na missão está na verdade vivo e quer conhecer os criadores.
E o enredo religioso? Retomando a idéia de criador da humanidade, redenção, sacrifício. E não é implícito não, a protagonista esfrega a cruz que ela carrega na nossa cara na parte final do filme.
Tem o de terror, igual do Alien (1979), que começa com a galera acordando, aí descobrem uma nave com objetos estranhos, coisa nojenta dentro do objeto, infecta um cara, não pode entrar na nave quem está infectado, um monstro aparece no meio do filme, morre uma galera, sobra uma só, escapa do planeta deixando uma mensagem de única sobrevivente.
Tem também outros plots que geram mais uma porrada de dúvida e terminam sem explicação. Sabe quem ajudou no roteiro do filme? Damon Lindelof, o cara que escreveu Lost, aquela série que terminou muito bem, com fãs completamente satisfeitos… não. Assim como na série, a disputa religião vs. ciência é apresentada (como mais um de seus roteiros), mas no fim a religião ganha e pronto.

Enfim, retornando a definição que dei para Avatar: Uma colcha de retalhos (um milhão de roteiros) de clichés (personagens estereotipados) de uma história manjada (no caso, do próprio diretor).

Além dos personagens serem clichés – com direito a “não te conheço, não quero papo com você, sou mau” logo no começo do filme – são rasos e mal construídos. Por exemplo: cientistas civis são chamados para uma missão de 4 anos e recebem um briefing apenas depois desses 4 anos. Como se civis fossem contratados dessa forma – especialistas indo, sem a menor idéia do que será feito, para uma missão espacial na lua de um planeta distante e, somente no local, recebem detalhes de suas tarefas. Isso não deveria estar num contrato?

Outro exemplo: um geólogo e um botanista (profissão de astronauta, hein?) claramente colocados no filme como pessoas medrosas que não querem explorar o lugar quando ele se torna mais sinistro, quando se perdem e têm que ficar sozinhos começam a explorar o lugar que não queriam antes e a falar com cobras alienígenas ao invés de fugir!

Fora um pequeno detalhe: Ao contrário de Alien, que a personagem principal, Ripley, evolui – Começa fraca, sente medo, receio e depois cresce, enfrentando o inimigo sem deturpar a personalidade apresentada – em Prometheus temos uma personagem que no fim do filme tem a mesma cabeça do começo do filme, com a história da cruz do pai dela.

E sobre o filme ser um prequel? O filme termina com um Alien nascendo do Engenheiro. Mas esse engenheiro não está no mesmo lugar que o mostrado no primeiro filme da série. A nave dele está no mesmo lugar, mas ao invés de ovos tem os baús com vírus. Essas diferenças podem significar 2 coisas: o filme pode ter uma sequência que se passa ainda antes de Alien ou o filme pode ser um Reboot (tipo Planeta dos Macacos: A Origem), o que pode significar num remake de Alien, o Oitavo Passageiro. Pra mim, isso se chama malandragem.

Finalizando, então, com os últimos pontos técnicos do filme. O visual: Igual Avatar. Não sei se vocês gostaram, mas eu achei, assim como em Matrix: Reloaded, os efeitos gráficos de Avatar já nasceram “datados”. Personagens claramente digitais, animação de movimento falsa. De novo, prometeram um visual incrível, recebi um visual artificial.

O áudio: A música me pareceu completamente perdida, não batia com o(s) enredo(s) nunca. Haviam cenas normais com uma trilha épica e cenas épicas com trilha fraca.

O filme até tem suas partes boas, também em forma de referências. O mapa, nave e alguns equipamentos são iguais aos de Metroid, jogo altamente influenciado pela série Alien, (nesse mashup dá pra ver as influências muito bem). O Briefing da missão é dado por um holograma do cara que investiu na mesma, esse holograma é idêntico ao descrito no livro Fundação, de Isaac Asimov. A atuação de Michael Fassbender como o android David é excelente, mesmo tendo suas dubialidades, mas claramente uma mescla de todos os grandes androids e robôs da ficção.

Quanto aos erros científicos do filme: não é uma ficção científica. É um filme de fantasia. A forma que eu vejo é que, como ele fala de criação dos seres humanos e da vida a partir de duplicação de DNA (nada de RNA), pelo visto ignorando existência de dinossauros, além de soar como o famoso Design Inteligente, que, para mim, é puramente fantasia. Isso além de colocar as luas bem próximas de seus planetas e manter um período de dia e noite igual da Terra, a nave entrar e sair da atmosfera do planeta-lua sem usar uma nave-mãe (tal como Star Wars que, também, é uma fantasia), fora outras coisas que não fazem sentido cientificamente falando. Na minha concepção, esse tipo de “erro” desqualifica a história como ficção científica.

No fim das contas, a Mira Machina avalia Prometheus com a nota 4/10.

E, como havia prometido, eis alguns reviews do filme que eu gostei:

Review feito pelo IzzyNobre (Texto em português)
Review e Análise feitos pela ComicBookGirl19 (Vídeo em inglês)
“Conversa” sobre o filme pela RedLetterMedia (Vídeo em inglês)
Rapaduracast 286 em duas partes sobre a série Alien e o filme Prometheus pelo Cinema com Rapadura (Podcast em português)
Nerdologia Prometheus no NerdOffice S03E22 pelo Jovem Nerd (Vídeo em português)

Curioso notar como muitas pessoas, inclusive eu, notaram problemas tão semelhantes do filme. Isso apenas reforça meu argumento de que o filme veio achando que ia ser inesquecível e logo será, justamente, esquecido.

E você, gostou do filme? Não viu, leu o post e agora não quer ver? Deixe um comentário com suas opiniões sobre o filme, compartilhe com seus amigos e não deixe de voltar.

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  1. Rick

    Cacete!!
    Curti mt… pena que não tive tempo pra ler seu blog antes.
    Tá, sensa!
    Parabéns

  2. Pingback: Além da Escuridão | Mira Machina

  3. fanny2

    Isso realmente esfriar a opção de assistir a esta série de Matrix , tem tudo para ser perfeito, eu amo para desfrutar de cada episódio

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