Quando veio o segundo?

Como prometi lá no primeiro post de todos, vamos continuar a brincadeira de quem veio primeiro, mas com um twist: quanto tempo levou para criarem invenções cruciais para o funcionamento de outras.

Como seres humanos, temos a constante necessidade de arranjar uma explicação simples e rápida para tudo. Isso nos torna muito propícios a errar constantemente. Quando temos dois objetos relacionados, imaginamos imediatamente (ou nem mesmo paramos para questionar) que foram concebidos juntos. O arco e a flecha, por exemplo, um não tem utilidade sem o outro. Porém, algumas situações, discretamente, não são recíprocas, fazendo com que os dois itens tenham idades muito distantes.
Vou exemplificar já com o primeiro caso:

A rolha e o saca-rolhas

Raciocinar que a rolha veio antes do saca-rolhas não é nada extraordinário, mas e se eu te falar que levou milênios até finalmente inventarem o saca-rolhas?

“Como abriam as garrafas?”, você deve estar perguntando. Simples: eles não enfiavam a rolha até o fim.
Até o século 17, se você colocasse a rolha muito pra dentro, já era. Qualquer um com a experiência de tentar abrir uma garrafa de vinho com a rolha quebrada ou sem abridor, sabe bem como esse pequeno vedador de cortiça pode acabar com um jantar.
Difícil dizer quando a rolha foi realmente inventada, pois a cortiça já era usada, por exemplo, por persas, egípcios, babilônios e chineses como bóias de pesca em 3000 a.C. Descobriu-se em Éfeso, uma ânfora do Séc. I a.C contendo vinho e fechada por uma rolha.
Também complicado é dizer quando veio o primeiro saca-rolhas, por exemplo, temos essa imagem de 1459 mostrando uma pessoa furando um barril de vinho com um equipamento bem semelhante a um saca-rolhas, mas não tem rolha aí, apenas vinho.

Outras fontes dizem que certas garrafas vinham com um barbante passando debaixo da rolha para facilitar a retirada, tipo aquelas fitas que usamos embaixo das pilhas.

Nos arredores de 1600, de forma não relacionada existia essa pequena buginganga:

Ela servia para retirar balas emperradas em mosquetes. Acredita-se que daí que originou o saca-rolhas que conhecemos hoje, provavelmente alguém com fundo militar teve a genial idéia de abrir seu vinho com isso.
Em 1795, o Reverendo Samuel Henshall patenteou o saca-rolhas.

Alimento enlatado e o abridor de latas

Essa não tem jeito, não dava pra deixar entreaberto como a rolha, nem mesmo tinha aquela argola pra destacar a tampa e as latas antigas não eram de alumínio. Pessoas com mais de 30 anos são de uma época que amassar uma latinha com as mãos era grande coisa.
Desde 1810, quando o inglês Peter Durand inventou a lata de estanho – um ano após o francês Nicolas Appert ter a idéia genial de conservar alimentos dentro de latas hermeticamente vedadas, mesmo sem entender porque funcionava – até 1855, quando, finalmente, criaram essa pequena máquina:

Sim, 45 anos abrindo latas com martelos e buris ou facas, indubitavelmente criando uma geração de “desdedados” e facas cegas, até que Robert Yeates pode nos dar um conforto para aliar a tecnologia de conservação de alimentos, mas que ficou popular apenas 10 anos depois, quando passou a vir de graça com bife enlatado.
Já as latas com anéis apareceram em 1956, mas não se trata de outra invenção, e sim um novo modelo de utilidade. Dedicarei outro post pra esse tipo de tecnologia.

O parafuso e a chave de fenda

O problema aqui não é o de “abrir”, mas a chave de fenda serve também para “fechar”, apertando ou afrouxando os parafusos.
Não se sabe exatamente quando foram criados, existiam máquinas com funcionamento semelhante a de parafusos no séc III a.C., mas não é disso que estamos falando. Em 428-350 a.C., o grego Arquitas de Terento, descreveu parafusos. No séc I d.C. eram de madeira e funcionavam como pregos mais firmes.
Os de metal surgiram no século XV, junto da porca, e servia para unir peças de metal, normalmente armaduras.
Já a chave de fenda, data a partir desse período, na frança e alemanha com os nomes tournevis e schraubendreher, respectivamente. Ambos significam, basicamente, “gira-parafusos”.
A partir daí, as duas invenções passaram a caminhar juntas.

Esses exemplos me fizeram pensar em objetos que temos hoje em dia e nenhuma forma simples e, teoricamente, lógica de usá-las com algum equipamento. Me lembrei dos potes de vidro como palmito, picles e azeitona. Lembro de existir um pequeno monstro que usava uma técnica de alavanca, mas não era tão prático assim e a maioria de nós preferiu continuar “abrindo” o pulso (nunca entendi essa expressão, como se abre um pulso?) ou entortando facas de pão.
É muito difícil perceber o que usamos de forma complicada sem vermos uma solução, por isso essas invenções parecem tão lógicas.

E vocês? Que equipamento consideram complicado de manusear? Deixem um comentário e, quem sabe, inventam o próximo abridor de vidro de azeitona? No próximo post da série: Coisas que foram inventadas antes de serem inventadas.

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  1. Muito bom!
    Em relação às rolhas, tinha visto já que em Roma antiga, a ânfora de vinho tinha uma abertura bem maior do que as garrafas tem hoje em dia, dessa forma eles vedavam as ânforas com uma rolha bem maior do que a atual, o que deixava uma parte da rolha exposta, possibilitando os romanos tirarem com as próprias mãos! hahaha

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