Papai Noel Não Veste Vermelho Coca-Cola

Papai Noel, uma das muitas (spoiler) criaturas mágicas inventadas para as pessoas se comportarem, pois, em troca, recebem algo de bom. Essa, pelo menos, tem sua inexistência revelada antes de atingirmos a puberdade, evitando alguns assassinatos e destruição em nome de Noel.

santadance

Provavelmente você já ouviu falar na história que as cores e até o design do bom velhinho são criação da Coca-Cola, para associar a sua marca. Mas mesmo que a própria empresa te diga isso, essa história não é verdade.

Assim como boa parte do cristianismo, o Papai Noel é uma mistura do que sobrou de mitologias antigas, associadas e modernizadas para tentar fazer sentido com a atualidade. Mais ou menos o que você faz com as comidas que sobraram da ceia de Natal.

Uma dessas mitologias é a que surgiu a partir de Nicolau de Mira, um bispo que nasceu em Patara (onde hoje é a Turquia), por volta do ano 280. Órfão, era conhecido por ajudar os necessitados com a herança de seus pais. Por exemplo, há uma história em que ele entrou secretamente na casa de uma família passando por dificuldades financeiras e deixou ouro. Foi visto na terceira vez, o que revelou sua identidade.

Depois de sua morte, que deve ter sido em 6 de Dezembro de 343, passou a ter seu dia celebrado por diversas nações, conhecido agora como São Nicolau, padroeiro da Rússia, da Grécia e da Noruega, patrono dos guardas noturnos na Armênia e dos coroinhas na cidade de Bari, na Itália, onde estariam sepultados seus restos.

A imagem associada ao santo é essa:

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Alguns dizem que Nicolau era Mouro — termo que deu origem à palavra moreno — o que explica sua cor de pele escura em algumas imagens.

Em holandês, é conhecido como Sinterklaas, da onde os americanos tiraram Santa Claus. Sua imagem é um senhor magro e barbudo, normalmente à cavalo. Seu ajudante é Pedro Preto, mas esse fica para outro post.

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presentOutro indivíduo que faz parte da história do Papai Noel é a personificação do Natal, criada pelos ingleses. Essa não era associada a presentes e crianças, mas a banquetes e bebidas.

Da mesma forma que a personificação da morte é conhecida por nós como Morte, esse personagem era conhecido apenas como Natal, às vezes como Senhor Natal e Nowell, versão inglesa do nome Noël, que significa Natal em francês.

Sua imagem é um rapaz de verde, sorridente, te chamando pra zueira.

Com o puritanismo da reforma protestante, as celebrações passaram a ser mal vistas e a imagem do beberrão Natal passou a ser de um velhinho frágil, que gosta de celebrar, mas sem excesso. Assim surgem os nomes Pai Natal e Papai Noel.

Babbo-Natale-in-una-cartolina-del-19°-secolo_Foto-di-vaultofthoughts.com_

A imagem do velhinho é associada ao anterior, e o Pai Natal, ressurge como um pagão, às vezes até montado numa cabra, retomando as origens mais antigas do feriado.

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A cabra e outros elementos pagãos que apareceram, vêm do feriado de Yule, que celebra o Solstício de Inverno no hemisfério norte, onde a figura do velhinho é associada a ninguém mais, ninguém menos que Odin.

Georg_von_Rosen_-_Oden_som_vandringsman,_1886_(Odin,_the_Wanderer)

Inclusive, a ideia de entrar pelas chaminés das casas, pode ter vindo das histórias de Odin, embora outras mitologias de diversos países tenham criaturas entrando pela chaminé.

Finalmente, quando o Novo Mundo foi explorando, todas essas mitologias se misturaram. Uma vez que diversas tradições foram unificadas, a imagem do bom velhinho foi se tornando mais e mais parecida com a que temos e, no começo do século 20, Papai Noel já tinha treno, renas, ajudantes, fábrica de brinquedos e sua querida esposa, Mamãe Noel.

PoemNo século 19, em 1823, Clement Clarke Moore escreveu o poema “The Visit from St. Nicholas” — que ficou mais conhecido como “The Night Before Christmas” — e Papai Noel, chamado apenas de St. Nick no poema, era descrito como um duende velho barbudo, gordo e alegre, fumando um cachimbo e agasalhado da cabeça aos pés. Não apenas ele, como seu treno e suas renas eram pequenas.

Em 1862, o cartunista Thomas Nast começou a desenhar o Papai Noel como conhecemos para o jornal Harper’s Weekly e, em 1881, para ilustrar esse poema. Nast desenhou da seguinte forma:

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Nast também foi o responsável pelo visual do Tio Sam e outros símbolos americanos.

A partir daí outros passaram a usar esse visual. Por exemplo, a adaptação do poema citado anteriormente para filme, em 1905, e a versão animada da Disney, de 1933, que você muito provavelmente já assistiu.

Ainda antes da Coca-Cola, vemos o Papai Noel exatamente como conhecemos, nessas ilustrações de 1905 e 1908, de Carl Stetson e E. Boyd Smith, especificamente.

CarlStetson1905 EBoydSmith1908

Porém, é sensato dizer que a Coca-Cola foi uma das responsáveis por transmitir essa imagem para os países do hemisfério sul e outros que não tinham tradição de Papai Noel. Em 1923, ela apresentou seu primeiro comercial estrelando Noel, mas o considerado oficial é somente de 1931. Nada mais apropriado que usar uma versão do velho com a mesma cor da marca:

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Antes de terminar, vamos voltar um pouco para os protestantes. Muitos não gostaram da imagem do velhinho de forma alguma, pois tanto não queriam o feriado associado ao paganismo pré-cristão, nem ao santo católico. Foi daí que surgiu a ideia do Menino Jesus, para competir diretamente com o Papai Noel no serviço de trazer presentes.

Além disso, os países que já tinham sua tradição, também não ficaram muito felizes com esse velho americano consumidor de refrigerante.

Plakat A4neu2-1

Temos também os comunistas banindo todo simbolismo religioso e os anarquistas querendo raptar e matar o Papai Noel, filho de profissional do sexo.

A reclamação de todos eles voltou com mais força, provavelmente graças a facilidade de transmitir informação hoje.

Ou seja, o Papai Noel é sempre associado a religião dominante da época e local — inclusive a atual, do deus dinheiro — e, quando outro grupo recebe mais força, ele passa a ser o vilão, até que uma nova versão é criada.

Com isso, o Papai Noel é o símbolo perfeito do ecumenismo e liberdade religiosa. Para bem ou para mal.

FSM_and_Raptor_Jesus

Boas Festas!

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  1. Antonio João

    Gostei da explanação.
    Li, se bem me lembro, na Super Interessante (quando ela era) que os católicos também recusavam o Natal e todo ornamento ligado a ele (guirlanda e etc).
    Que um bispo chamava a arvore de natal de “casa do diabo”, e que, uma bela noite de Natal seus fieis montaram uma arvore grande e vistosa bem em frente à igreja de bispo.

    • Muito obrigado pela adição.
      Recomendo ler o livro O Rei do Inverno, de Bernard Cornwell, que em alguns trechos comenta um pouco dos cristãos começando a celebrar o natal nas terras pagãs.

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